No tempo em que olhava para as nuvens
Por Caroline Reis
Tudo era mais simples quando passava horas olhando para as nuvens a
descobrir com que se pareciam e no que poderiam se transformar a cada vento. Tudo era
mais simples, quando a criança obediente aos pais deitava mesmo sem sono, sem
conseguir dormir e passava a observar as marcas das telhas velhas que cobriam o
quarto, o fato de serem velhas jamais incomodou, as telhas marcadas pelo tempo abriam
espaço para minha imaginação capaz de contar histórias a cada noite de ansiedade por
um novo dia.
Menina que mesmo sem ter muito que fazer era só ansiedade, ansiedade que a
cada novidade, cada viagem, cada acontecimento aumentava ainda mais. Perdia o sono,
a fome, mas a imaginação continuava lá para abrandar e por vezes diminuir minhas
inquietações. Lembro-me como dormir era chato e nem sei como era capaz de afirmar
que dormir era perda de tempo. Apesar de todos a minha volta sempre dizerem que
devia aproveitar a tranqüilidade da infância, em que não tinha com que me preocupar,
não dava muita atenção, sempre com subtextos e milhares de perguntas na mente. Na
minha cabecinha ingênua tudo era capaz de ser qualquer outra coisa, semelhante ou não.
Torneira se transformava em microfone de rádio, espelho em TV particular, rachaduras
na parede em mapas que revelavam o tempo.
Não faz muito tempo que isso aconteceu, mas já sinto essa fantasia distante
de mim. Não tenho mais o mesmo tempo. Acho que já entrei na fase em que não se
pode escapar do sistema. Se é que isso é real. Ao olhar para as nuvens o máximo que
consigo ver é se vai chover ou não para saber se devo levar o guarda-chuva. As telhas
que alimentavam histórias em mim passaram a me incomodar e logo foram substituídas
por telhas novas. A ansiedade foi omitida por um maço de cigarros, vício maldito sem o
qual já não vivo. Na maior parte do tempo o que quero fazer é dormir, minhas olheiras,
eternas companheiras refletem a falta que o sono me faz. Os subtextos deram lugar aos
resmungos, a insatisfação de uma quase escrava disfarçada de assalariada.
Por Caroline Reis
Tudo era mais simples quando passava horas olhando para as nuvens a
descobrir com que se pareciam e no que poderiam se transformar a cada vento. Tudo era
mais simples, quando a criança obediente aos pais deitava mesmo sem sono, sem
conseguir dormir e passava a observar as marcas das telhas velhas que cobriam o
quarto, o fato de serem velhas jamais incomodou, as telhas marcadas pelo tempo abriam
espaço para minha imaginação capaz de contar histórias a cada noite de ansiedade por
um novo dia.
Menina que mesmo sem ter muito que fazer era só ansiedade, ansiedade que a
cada novidade, cada viagem, cada acontecimento aumentava ainda mais. Perdia o sono,
a fome, mas a imaginação continuava lá para abrandar e por vezes diminuir minhas
inquietações. Lembro-me como dormir era chato e nem sei como era capaz de afirmar
que dormir era perda de tempo. Apesar de todos a minha volta sempre dizerem que
devia aproveitar a tranqüilidade da infância, em que não tinha com que me preocupar,
não dava muita atenção, sempre com subtextos e milhares de perguntas na mente. Na
minha cabecinha ingênua tudo era capaz de ser qualquer outra coisa, semelhante ou não.
Torneira se transformava em microfone de rádio, espelho em TV particular, rachaduras
na parede em mapas que revelavam o tempo.
Não faz muito tempo que isso aconteceu, mas já sinto essa fantasia distante
de mim. Não tenho mais o mesmo tempo. Acho que já entrei na fase em que não se
pode escapar do sistema. Se é que isso é real. Ao olhar para as nuvens o máximo que
consigo ver é se vai chover ou não para saber se devo levar o guarda-chuva. As telhas
que alimentavam histórias em mim passaram a me incomodar e logo foram substituídas
por telhas novas. A ansiedade foi omitida por um maço de cigarros, vício maldito sem o
qual já não vivo. Na maior parte do tempo o que quero fazer é dormir, minhas olheiras,
eternas companheiras refletem a falta que o sono me faz. Os subtextos deram lugar aos
resmungos, a insatisfação de uma quase escrava disfarçada de assalariada.
contas a pagar, sair antes de escurecer, chegar quando estão todos a dormir. Como era
bom o tempo em que podia sentar na calçada, observar pessoas, carros, estrelas e deixar
as horas rolarem até escutar um grito de ordem me tocando pra dentro. Quando 21h já
era tarde para se estar na rua, quando arrumar a casa era diversão, ler era passatempo,
jornal era coisa de adulto, guerra coisa de livro e as nuvens eram o que eu queria que
fossem.
Publicada na Revista Ensaios – n.1, v.1, ano 1, 2º semestre de 2008, Publicação de graduandos da Universidade Federal Fluminense
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